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Conheça a história de Pat Robertson, o comunicador evangélico que levou a TV cristã para o mainstream

Com a CBN, “The 700 Club”, Regent University, Christian Coalition e uma candidatura à presidência, ele mudou o lugar dos evangélicos na vida pública.
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Conheça a história de Pat Robertson, o comunicador evangélico que levou a TV cristã para o mainstream
Image: Pat Robertson / edits by Rick Szuecs

Ao longo de seis décadas à frente das câmeras, Pat Robertson trouxe sua sensibilidade pentecostal e a política conservadora para milhões de lares, como pioneiro da televisão cristã e líder da Christian Coalition.

O apresentador franco e direto morreu no dia 8 de junho, aos 93 anos, em Virginia Beach, lar de sua Christian Broadcasting Network (CBN) e da Regent University. Robertson aposentou-se como apresentador do programa principal da CBN, The 700 Club, em 2021, aos 91 anos, embora continuasse a aparecer nos segmentos mensais de perguntas e respostas.

Durante sua carreira na TV, o ex-candidato à presidência pelo Partido Republicano entrevistou cinco presidentes dos EUA e dezenas de líderes globais; orou por milhões de telespectadores; fez previsões políticas; e gerou polêmica com seus comentários de improviso, que classificavam desastres como furacões, terremotos e os ataques de 11 de setembro como juízo de Deus.

Embora seus comentários controversos atraíssem muita atenção em seus últimos anos, Robertson também esteve entre os evangélicos mais influentes do século 20, com seu espírito empreendedor e sua disposição de fazer tudo o que achava ser da vontade de Deus.

“Robertson influenciou três grandes desenvolvimentos religiosos: a renovação carismática, a TV cristã e a política evangélica”, escreveu a CT em um perfil de Robertson escrito em 1996. “Juntos, esses desenvolvimentos ajudaram a transformar o evangelicalismo de um pequeno reduto defensivo para a principal força do cristianismo americano”.

Antes de a CBN se tornar a potência da transmissão televisiva que é hoje — com um orçamento anual de 300 milhões de dólares e alcance em 174 países — ela foi uma extinta estação de televisão da Virgínia e um chamado de Deus.

Não havia um modelo de sucesso para a TV cristã, quando Robertson comprou uma instalação decadente em Portsmouth, Virgínia, e lançou a WYAH-TV (assim batizada em homenagem a Yahweh), em 1961, transmitindo três horas de programação todas as noites, a partir de uma única câmera em preto e branco. Aqueles primeiros anos foram exaustivos, vertiginosos e sem planejamento; para o empresário pentecostal, porém, a estação parecia um milagre.

A primeira campanha televisiva da CBN lançou o “The 700 club”, em 1963, recrutando 700 telespectadores para doarem 10 dólares por mês, a fim de cobrir as despesas da estação; o show, que levava o mesmo nome, veio três anos depois.

Robertson manteve a estação em crescimento arrecadando mais fundos, mais talentos — os evangelistas Jim e Tammy Bakker ingressaram em 1965 — e com novas tecnologias. A criação das redes Praise the Lord (PTL) e a Trinity Broadcasting Network aconteceu logo em seguida.

Robertson se tornou um dos primeiros executivos da TV a investir em satélite, permitindo que a CBN transmitisse sua campanha anual em 18 cidades e lançasse uma rede a cabo com transmissão 24 horas por dia, em 1977. Em uma década, a CBN estava em 9 milhões de lares.

Como a CT relatou em 1982, “A CBN começou a substituir a linguagem de púlpito e o inglês ao estilo King James pelo estilo do talk show de Johnny Carson e o vernáculo de novelas. Seu programa âncora, The 700 Club, assumiu um formato dinâmico de revista, recheado com anúncios de notícias de Washington, a capital dos Estados Unidos. Outros programas lembravam as programações populares do TV Guide, com uma novela de alta qualidade, um programa matinal de notícias e entrevistas, uma minissérie sobre pornografia, análises de Wall Street e entretenimento para crianças”.

Embora Robertson se sentisse confortavelmente em casa no set da CBN, discutindo sobre oração e política com seu estilo carismático, ele se tornou um tipo diferente de pessoa do que quando era um batista do sul, lá em Lexington, na Virgínia, irriquieto e desinteressado da fé evangelística.

Marion Gordon Robertson nasceu em 1930, e foi apelidado de “Pat” por conta dos tapinhas que seu irmão lhe dava em suas bochechas rechonchudas. Seu pai, A. Willis Robertson, foi senador dos Estados Unidos, e Pat Robertson teve uma educação de elite na Washington and Lee University e na Yale Law School. Ele serviu dois anos na Guerra da Coreia.

Depois de ser reprovado no exame da ordem dos advogados americana e de largar um emprego no mundo dos negócios em Nova York, ele decidiu se tornar pastor, uma decisão que confundiu sua devota mãe que morava na Virgínia. Ela o colocou em contato com um missionário holandês chamado Cornelius Vanderbreggen. Certo dia, Robertson foi jantar com Vanderbreggen na Filadélfia e se encolheu envergonhado, quando este compartilhou um folheto evangelístico com o garçom e leu a Bíblia à mesa.

Mas Robertson vinha estudando as Escrituras secretamente e começou a sentir Deus falando por meio delas. Ele fez uma confissão de fé a Vanderbreggen, que mais tarde passou a ver como sua conversão pessoal “de filhinho de papai a santo”. Naquele momento, dizia ele, passou do assentimento religioso sobre a existência de Deus para um relacionamento salvífico com seu Pai Celestial.

Ele surpreendeu sua esposa, Dede, com o zelo gerado pela sua conversão — ele despejou seu uísque caro pelo ralo, deixou-a por um mês, grávida de seu segundo filho, enquanto participava de uma conferência da InterVarsity e, mais tarde, vendeu os móveis da casa e se mudou com a família de cinco pessoas para um quarto e sala de um apartamento compartilhado no Brooklyn, inspirado no mandamento de Lucas 12.33 de “vender seus bens e dar aos pobres”. Seu primeiro trabalho no ministério foi na Bayside Community Church, em Long Island.

Com quase 30 anos, Robertson frequentou o Seminário Bíblico em Manhattan, juntando-se a um grupo de crentes devotos que oravam, jejuavam e se dedicavam a buscar a Deus enquanto ministravam entre os pobres. Ele participou de retiros de oração com colegas de classe, entre os quais estava Eugene Peterson. Robertson e os “soldados de Cristo” pregaram nas esquinas, quando Billy Graham chegou na cidade, em 1957. Eles se encontraram com a editora do Guideposts, Ruth Stafford Peale, e oraram em línguas por avivamento, inspirando dois livros seminais da renovação carismática, They Speak with Other Tongues [Eles falam em outras línguas] e The Cross and the Switchblade [A cruz e o punhal].

“Agora eu havia entrado no Livro de Atos e não era mais um espectador, e sim um participante ativo nas obras de um Deus que faz milagres”, dizia Robertson.

Robertson trocou Nova York por sua cidade natal na Virgínia, depois de se formar, em 1959. Em Lexington, ele teve a oportunidade de pregar em segmentos de rádio de 15 minutos, e ficou sabendo que havia uma estação de TV à venda a cinco horas de distância, em Portsmouth. Quando sua família se mudou, ele sequer tinha um aparelho de TV, “apenas 70 dólares no bolso e a visão de abrir a primeira rede de televisão cristã nos Estados Unidos”, conta sua biografia . Ele pregou em igrejas locais para sobreviver, antes que a rede de TV começasse a funcionar; alguns lhe davam ofertas de 5 dólares e outros o pagavam com um saco de soja de 30 quilos.

Muitos dos empreendimentos de Robertson seguem esse padrão de ouvir um chamado de Deus e, em resposta, lançar um projeto.

“Eu queria fazer parte do plano de Deus; seu plano é evangelizar o mundo e trazer milhões para o reino, e ele me deixou fazer parte disso”, disse Robertson.

Ele disse que Deus falou com ele, durante o almoço (de meio melão e queijo cottage), para que construísse uma escola para sua glória e, em 1977, Robertson comprou 70 acres em Virginia Beach para a CBN University, que mais tarde se tornaria a Regent University. Setenta e sete alunos se matricularam no primeiro ano.

No Natal do ano seguinte, Robertson disse que Deus falou para ele “proclamar uma mensagem simples de salvação”, pois enviaria seu Espírito por todo o mundo e milhões responderiam. Ele lançou o que viria a se tornar a CBN International. Hoje, 90% dos telespectadores da rede são de fora dos Estados Unidos.

A leitura da promessa de bênção em Isaías 58 o levou a fundar a instituição de caridade humanitária Operation Blessing, em 1978; o ministério passou a ajudar pessoas em 90 países e territórios.

E foi também com um chamado de Deus em mente que Robertson entrou na arena política. Ele voltou para o brownstone Bedford-Stuyvesant, onde morou em Nova York, para anunciar sua candidatura presidencial, em 1987.

Mesmo antes de concorrer à presidência, os espectadores cristãos reconheciam o interesse de Robertson pela política, alguns com entusiasmo e outros com cautela. Ele brincava que o Senado, onde seu pai serviu por décadas como um democrata conservador do Sul, seria um rebaixamento, mas a presidência seria um “mudança lateral” de seu cargo na CBN.

A Christianity Todayescreveu sobre o burburinho inicial em torno das ambições de Robertson à presidência, em 1985:

Ele está intensamente interessado em educar os cristãos sobre questões públicas e em estimular seu entusiasmo pelo envolvimento na política. Robertson acredita que a América enfrenta uma encruzilhada, na qual os valores da família e a fé em Deus podem perder para o estatismo e o hedonismo. Concorrer à presidência não garantirá a Robertson um mandato na Casa Branca, mas quase certamente significará que os candidatos à presidência, em 1988, não serão capazes de descartar as questões morais com que os cristãos se importam.

No início dos anos 80, Robertson começou a dedicar a primeira meia hora do The 700 Club a questões públicas, ficando cada vez mais preocupado com o secularismo e as ameaças à liberdade religiosa, como restrições à oração nas escolas. Ele viu o conteúdo do programa passar por uma mudança em resposta aos excessos do governo. “Não é que estejamos entrando na política”, disse ele. “Eles é que estão entrando na religião.”

Robertson disse que via a presidência como uma forma de continuar seu chamado para servir. Apesar de terminar em segundo lugar nas primeiras convenções de Iowa, ele perdeu na Superterça e desistiu da candidatura, passando a apoiar George H. W. Bush. Após a campanha, ele escreveu em The Plan [O Plano] que via um propósito mais profundo em sua corrida fracassada à Casa Branca.

“Será que o motivo da minha candidatura foi cumprido com a ativação de dezenas de milhares de cristãos evangélicos no governo?” Robertson disse. “Pela primeira vez na história recente, cristãos patriotas e pró-família aprenderam técnicas simples para promover uma organização partidária eficaz e uma campanha bem-sucedida. Sua presença, como uma força ativa na política americana, pode vir a resultar no fato de pelo menos um dos principais partidos políticos da América assumir uma perspectiva profundamente cristã em suas plataformas e estrutura partidária”.

Ele aproveitou esse impulso para lançar a Christian Coalition, que reuniu eleitores evangélicos e distribuiu guias de votação para as igrejas, a partir de 1989. No ano seguinte, ele também fundou um escritório de advocacia “pró-família, pró-liberdade e pró-vida”, o American Center for Law and Justice (ACLJ) [Centro Americano em defesa da lei e da justiça].

Parte de um movimento maior da direita religiosa, a coalizão via que alguns evangélicos conservadores concordavam com suas posições também conservadoras, mas permaneciam reticentes em declarar uma posição cristã em questões que não tinham um mandato bíblico claro. A organização também lutou por uma década com o governo federal, por causa de seus guias apartidários, e acabou perdendo seu status de isenção de impostos.

Robertson se via como um evangélico com dom carismático e perspectiva ecumênica, tendo dito certa vez: “No que diz respeito à majestade da adoração, sou episcopal; quanto à crença na soberania de Deus, sou presbiteriano; quanto à santidade, sou metodista... quanto ao sacerdócio dos crentes e ao batismo, sou batista; quanto ao batismo no Espírito Santo, sou pentecostal; então, sou um pouco de todos eles”.

Companheiros cristãos frequentemente desafiavam (ou reviravam os olhos para) algumas das declarações que Robertson, ao longo dos anos, fez na televisão, enquanto comentava eventos da atualidade e respondia a perguntas dos telespectadores. Ele pediu que os EUA assassinassem o presidente venezuelano Hugo Chávez. Defendeu que o marido poderia se divorciar de uma esposa com Alzheimer. Também previu a vitória de Donald Trump e não aceitou sua derrota, em 2020, até uma semana depois que Joe Biden foi declarado vencedor.

“Pat Robertson fazia parte de uma tradição de cristãos evangélicos que tinham uma visão perspicaz da mídia como uma ferramenta para alcançar o público”, disse Michael Longinow, professor de jornalismo digital e mídia da Biola University. “Sua tendência de fazer declarações de improviso que eram incendiárias também segue uma tradição — ainda que trágica — de cristãos evangélicos que misturaram o evangelho com perspectiva política.”

Quer se ame ou se odeie Robertson, seu alcance é algo difícil de ignorar. The 700 Club vai ao ar em 97% dos mercados de TV nos Estados Unidos e está entre os programas mais antigos da história.

Em seu site, Robertson listou “abrir empresas/transações financeiras” como um de seus hobbies, e seu sucesso nessa área vai além da CBN. Ele fundou a International Family Entertainment Inc., empresa controladora do Family Channel, que foi vendida em 1997 por US$ 1,9 bilhão. Equilibrando seu sucesso financeiro e seu chamado, Robertson disse: “Percebi que Deus não queria que eu fosse um investidor bilionário. Ele me queria como um servo humilde que dependia dele e queria andar em seus caminhos”.

Dede, esposa de Robertson por 67 anos, morreu em 2022. Ele deixa dois filhos, duas filhas, 14 netos e 23 bisnetos. Seu filho, Gordon Robertson, é CEO da CBN e o apresentador e produtor executivo do The 700 Club.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

Editado por Marisa Lopes.

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