O recente ressurgimento do interesse nos papéis de gênero segundo a Bíblia — ou seja, em como homens e mulheres servem na igreja e em como agem em relação um ao outro no lar — parece estar concentrado na igreja ocidental, especialmente nos EUA. A revista Christianity Today entrou em contato com o presidente do Gordon-Conwell Theological Seminary, Scott W. Sunquist, que também é missiólogo com especialização em cristianismo não ocidental, para lhe perguntar sobre o contexto global em torno da questão do gênero e a igreja.

Esta entrevista foi levemente editada para fins de estilo e clareza.

Como os termos do debate sobre os papéis de gênero vieram a ser definidos na igreja evangélica?

Farei dois comentários prévios: Primeiro, “evangélico” se tornou uma categoria contestada, de modo que sempre que perguntamos sobre “a igreja evangélica”, precisamos especificar melhor de que família ou tradição estamos falando. Em segundo lugar, grande parte do “debate” sobre os papéis de gênero ocorreu quando minha família estava no exterior; portanto, perdemos a forma inicial da discussão em torno dos termos complementarismo e igualitarismo. Eles foram conceitos novos que começaram a se difundir no final da década de 1980.

O debate evangélico sobre essa questão tem sido muito diferente da discussão ecumênica, maior e mais ampla, sobre os papéis de homens e mulheres. A Igreja Ortodoxa não ordena sacerdotes do sexo feminino e os católicos romanos também não. As principais igrejas protestantes começaram a franquear a mulheres o acesso a todos os cargos da igreja, na esteira do grande movimento missionário, no qual as mulheres predominaram no trabalho pioneiro. Os pentecostais, desde os primeiros anos do movimento, reconheceram a igualdade de função de mulheres e de homens e, portanto, nessa tradição, as mulheres estavam plantando e pastoreando igrejas já no início do século 20.

A visão dicotômica (“ou isto/ou aquilo”) dos papéis de gênero que temos hoje surgiu principalmente das tradições dos batistas do Sul, dos batistas independentes e de reformados conservadores, que defendem a clareza de dois gêneros e que delineiam com o termo complementarista os papéis tidos como aceitáveis para as mulheres. E é preciso deixar claro que esse discurso específico é uma abordagem americana que foi exportada em alguma medida por meio da obra missionária.

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Deve ser dito também que nem todas as tradições que se identificam como evangélicas, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo, encaram o debate da mesma maneira.

O debate entre complementarismo e igualitarismo é muito importante nos EUA (e na igreja ocidental em geral). Como a visão dos papéis dos homens e das mulheres na igreja é vista em outros países do mundo? No que diz respeito às distinções entre homens e mulheres, como as Escrituras se revelam em diferentes convicções eclesiológicas pelo mundo afora?

Como todos sabemos, a diversidade de culturas (vista mais claramente na religião e no idioma) é uma coisa bela de se ver e pela qual devemos agradecer a Deus. Tive o privilégio de ter ensinado e de ter aprendido com líderes cristãos em muitos países da Ásia e da África. Em geral, quando as mulheres aprendem a ler e a escrever, seus papéis mudam. O evangelho traz alfabetização e educação para as mulheres, e isso geralmente é uma ameaça aos papéis femininos tradicionais nas culturas islâmica, hindu e budista. As mulheres ganham poder por meio da alfabetização. Elas se tornam capazes de ensinar seus filhos, fazer perguntas e evangelizar outras pessoas.

Entretanto, em muitas culturas ao redor do mundo, homens e mulheres cristãos sentam-se em lados diferentes do santuário, e, no lado destinado às mulheres, são elas que ficam responsáveis por cuidar das crianças. Os papéis de gênero são culturais, mas o evangelho sempre traz uma dose de liberdade para as mulheres que vivem em culturas onde são oprimidas. Dito de forma diferente: Quando o evangelho entra em qualquer cultura, ele move essa cultura em direção a uma maior graça, integridade e melhorias para todas as pessoas. As culturas são afetadas pela Queda, e o evangelho retifica os padrões das culturas para indivíduos, famílias e sociedades.

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Como comparar isso às igrejas monoétnicas nos EUA?

Seguindo a partir da sua pergunta anterior, vamos imaginar o que acontece quando pessoas de outros países vêm para os Estados Unidos. As igrejas coreanas (e a maioria das chinesas) são dominadas por uma ética e uma ordem social de base confucionista, na primeira geração. Nas sociedades confucionistas, toda ordem social é hierárquica: o imperador acima dos súditos, o pai acima dos filhos, o marido acima da esposa etc. Portanto, essas igrejas raramente têm mulheres na liderança, embora as mulheres geralmente dirijam as igrejas dos bastidores.

O lado positivo disso é que um coreano entenderia a igreja como Minha igreja, com meu povo; e também entenderia que o cristianismo não é uma religião estrangeira e eu posso ir à igreja sem mudar de cultura. O lado negativo dessa forte adesão aos padrões culturais é que, às vezes, as mulheres não são tratadas pelos homens com respeito e dignidade cristãos. Isso prejudica o testemunho cristão. Esse é um dos muitos exemplos culturais que podemos identificar como uma conversão incompleta das culturas. Encontramos exemplos assim nas culturas do mundo inteiro.

Como mencionei anteriormente, há uma retificação que vem com a conversão a Cristo. A conversão não nos deixa ficar com todos os padrões pecaminosos da nossa cultura. Muitas igrejas indianas e do Oriente Médio nos Estados Unidos têm homens e mulheres sentados em lados diferentes do santuário. Devemos nos lembrar de que tanto as culturas dos povos originais locais quanto os ensinamentos dos missionários ocidentais frequentemente influenciam o lugar e o papel das mulheres.

Nos Estados Unidos, não existe uma igreja chinesa ou uma igreja negra que seja “pura” — e nem mesmo uma suposta igreja “branca” pura. Todas as culturas são feitas à imagem de Deus, mas todas também são afetadas pela Queda. É importante lembrar disso, para não tentarmos moldar todos os grupos étnicos à “nossa” própria imagem e para não insistirmos em nossa definição de papéis de gênero na família e na igreja.

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À medida que o evangelicalismo crescer fora do mundo ocidental, as controvérsias e as discussões sobre os papéis das mulheres e dos homens ficarão mais ou menos relevantes no evangelicalismo mais amplo?

Se por “evangelicalismo” você quer dizer tradições de fé centradas na autoridade bíblica, na centralidade de Cristo e na necessidade de conversão, então, o evangelicalismo já cresceu fora do mundo ocidental. Atualmente, no Ocidente, esses “evangélicos” representam apenas cerca de 30% dos evangélicos do mundo todo. Como Ogbu Kalu costumava dizer, “o cristianismo africano é cristianismo evangélico”. A maioria das comunidades cristãs em crescimento (inclusive as pentecostais) em locais como China, África, Sul da Ásia, Sudeste Asiático e América Latina seria considerada evangélica, segundo a descrição acima mencionada. Em muitas das igrejas independentes africanas, o evangelicalismo não ocidental geralmente tem ensinamentos peculiares, mas, em termos gerais, elas são igrejas evangélicas e sua abordagem de gênero segue as normas culturais.

Mas, como mencionei anteriormente, a situação das mulheres melhorou. Precisamos prestar atenção e observar como o evangelho remodela várias culturas africanas e asiáticas, especificamente no que se refere à visão e ao papel das mulheres. Grande parte da discussão delas sobre os papéis de gênero na igreja está relacionada à aplicação da Bíblia aos papéis de gênero em sua cultura atual, além de terem de ler livros ocidentais e ouvir cristãos ocidentais. Quando se trata de questões não essenciais, como papéis de gênero, os cristãos ocidentais precisam ouvir, por exemplo, como os cristãos egípcios ou malaios moldam suas eclesiologias, seu cuidado pastoral e sua pregação. Os cristãos americanos não são bons em ouvir.

Eu pastoreei uma igreja presbiteriana em Singapura, quando havia apenas uma mulher ordenada no presbitério, e ela era da Inglaterra. A próxima mulher a ser ordenada foi uma aluna minha, a qual se tornou pastora de uma igreja que ajudei a plantar. A mudança ocorreu ao longo de anos e não foi concretizada por “autoridades” de fora, mas por meio de estudo bíblico, reconhecimento de dons espirituais e oração. Como nos Estados Unidos, nem todas as denominações em Singapura e na Malásia ordenam mulheres. Mas a maioria das funções na igreja — de ministrar como diáconos e presbíteros, de ler as Escrituras, de ensinar, de plantar igrejas, de servir a Santa Ceia — agora está franqueada às mulheres. A ordenação é a única função que não está aberta às mulheres em todas as igrejas evangélicas do mundo.

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O que a igreja ocidental pode aprender com a igreja global sobre como abordar os papéis de homens e mulheres? Como podemos buscar a unidade e, ao mesmo tempo, defender as convicções bíblicas?

Acho que precisamos reconhecer que a igreja global é diversificada no que concerne às suas eclesiologias, pois é disso que estamos falando: quem pode ser ordenado, pregar, supervisionar os sacramentos e ensinar. Os cristãos chegaram a muitas conclusões diferentes sobre questões não essenciais, e precisamos ser graciosos em receber a riqueza que nossa comunhão global nos propicia. Algumas igrejas limitam a participação das mulheres no culto por motivos bíblicos e/ou de tradição. Essa é uma prerrogativa delas que devemos honrar, desde que as mulheres sejam respeitadas e tenham maneiras significativas de participar do corpo de Cristo.

Em um mundo tão dividido como o nosso, os cristãos do Ocidente devem aprender humildemente com a igreja majoritária, buscando uma unidade mais profunda em torno do essencial e não permitindo que aquilo que não é essencial, como os papéis de gênero, venha a nos dividir. O mundo precisa ver a unidade por meio de uma humildade cristã cheia de graça.

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