O conceito de apatia tem uma longa história no mundo ocidental. Não somos a única cultura a tratá-lo como algo “legal”, “bacana”. Os grandes filósofos do passado debateram sobre seu significado e valor. De fato, entre certos filósofos gregos, a apatia era uma das maiores coisas a que se poderia aspirar. O termo grego apatheia significa “sem pathē” (sem paixões); no pensamento de alguns filósofos, as paixões muitas vezes se referem a emoções violentas como amor, medo, tristeza, ira, inveja, luxúria, dor ou prazer que surgem em resposta ao mundo lá fora.

Segundo os estoicos, por exemplo, os sábios — aqueles que desejam uma vida próspera — são indivíduos totalmente livres de paixões. Em outras palavras, os sábios não são vulneráveis aos altos e baixos da vida neste mundo. Eles são autossuficientes; os acontecimentos exteriores da vida “apenas roçam a superfície” de suas mentes, como observa Martha Nussbaum em The Therapy of Desire [A terapia do desejo]. O objetivo da vida é o que poderíamos chamar de “impassibilidade” ou serenidade da alma. Mesmo grandes filósofos não estoicos, como Aristóteles, reconheciam o valor de se limitar as paixões, pois acreditavam que a boa vida estava reservada aos apáticos.

Os primeiros pensadores cristãos estavam bem cientes da antiga tradição filosófica de pensamento que valorizava a apatia. Curiosamente, como seus antecessores filosóficos, eles buscaram aplicar o conceito de apatheia não apenas aos seres humanos, mas também a Deus.

Aqueles que fizeram algum curso de introdução à teologia podem ter encontrado o termo impassibilidade nas discussões sobre os atributos de Deus. A impassibilidade é uma tradução do termo grego apatheia para o latim, e foi um conceito muito discutido entre os pais da igreja.

Segundo o teólogo Pavel Gavrilyuk, falar de Deus como alguém impassível é dizer que “ele não tem as mesmas emoções que os deuses dos pagãos; que seu cuidado pelos seres humanos é livre de interesse próprio e de qualquer associação com o mal”. Impassibilidade significa que Deus não é dominado por emoções, nem tem suas emoções afetadas por nada que seja externo a ele.

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Embora possa ser apropriado atribuir “emoções” a Deus, a impassibilidade (ou apatheia divina) exclui aquelas que lhe são impróprias. Assim, por exemplo, quando falamos de Deus como amor, na verdade estamos falando de um Deus apaixonado. Mas é uma paixão impassível, um amor que não é ditado pelo mundo exterior. Em outras palavras, diferente de nós, Deus não está sujeito a paixões violentas. Apatheia é outra maneira de se referir à imutabilidade e à solidez da afeição de Deus por tudo o que ele é e por tudo o que ele fez.

De acordo com alguns pensadores da igreja antiga, a apatia humana é um estado de ser virtuoso e uma imagem da própria virtude de Deus. Uma pessoa dotada de apatheia é alguém que dominou suas paixões por meio da disciplina e alcançou um verdadeiro amor por Deus. De acordo com Evágrio de Ponto, um monge do quarto século, “O amor é fruto da impassibilidade”. Apatheia era algo a ser buscado, o ápice de uma vida bem ordenada que examinou a si mesma e submeteu-se.

No entanto, o tipo de apatia com que lidamos nada tem a ver com a tentativa consciente de nos fortalecer contra os altos e baixos da vida ou com a tentativa de cultivar um desapego do mundo que gere amor por Deus. Acredito que, para os cristãos primitivos, o conceito que melhor se aproxima do que chamaríamos hoje de apatia não é apatheia, mas sim um termo nada palatável — preguiça (ou acídia).

Quando pensamos em preguiça, podemos pensar em uma criatura que se move lentamente ou em alguém viciado em televisão, que passa o dia todo de pijama, em frente à TV, comendo potes de sorvete Ben & Jerry's. No entanto, os cristãos descreveram a passividade de maneira muito mais rica.

A acídia é um termo grego que significa literalmente “indiferença, letargia, exaustão e apatia”. Um dos primeiros e mais influentes pensadores sobre a acídia foi Evágrio de Ponto. Ele compilou uma lista de oito tentações mortais, que mais tarde se transformaram no que hoje conhecemos como os sete pecados capitais. Embora ele seja um desconhecido para muitos de nós, suas reflexões sobre as dimensões espirituais da apatia são inspiradoras:

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A acídia é uma afeição intangível, que desvia nossos passos, nos leva ao ódio pela diligência, a uma batalha contra a solitude, a um tempo tempestuoso para a salmodia, à preguiça de orar, a um afrouxamento da ascese [autodisciplina estrita], à sonolência inoportuna, ao sono recorrente, à opressão da solidão, ao ódio da própria cela, a ser contrário às obras ascéticas, a ser um oponente da perseverança, à mordaça da meditação, à ignorância das escrituras, a tomar parte na tristeza.

A acídia é uma companhia constante. Tem como alvo as práticas espirituais que pretendem nos trazer vida, como a oração, a solitude, a leitura das Escrituras, o trabalho árduo e a perseverança em fazer o bem. Em suas instruções práticas aos colegas monges sobre vários vícios, Evágrio de Ponto dedica mais espaço a descrever a acídia do que a qualquer outra coisa.

Da mesma forma, outro monge e importante pensador, João Cassiano, descreve a acídia como uma inquietação que nos leva a perseguir tudo, exceto nossos deveres mais importantes. A acídia distrai. Ela nos torna preguiçosos e lentos em relação às nossas responsabilidades espirituais e práticas. É uma preguiça seletiva que torna atrativo todo o restante.

Uma escritora mais atual, Nicole M. Roccas, faz uma síntese bastante útil da acídia em Time and Despondency [Tempo e desânimo], apontando que ela pode assumir formas diferentes em pessoas diferentes. Por exemplo, pode se manifestar como (1) inquietação, incapacidade de terminar um livro, de orar mais longamente ou de terminar uma tarefa; (2) produtividade acompanhada de raiva ou tédio pelas coisas que está fazendo; ou (3) uma inclinação para dormir, comer, se preocupar e se distrair.

Um fio comum que une essas várias manifestações é a falta de propósito ou a falta de objetivo. As coisas são deixadas de lado, são feitas com o propósito errado ou sem qualquer propósito. Como observa Rebecca Konyndyk DeYoung em Glittering Vices [Vícios glamurosos], o coração fica insensível às “exigências do amor” — isto é, às coisas para as quais Deus nos chamou.

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Em Creed or Chaos? [Credo ou caos?], Dorothy Sayers chama a acídia de “o pecado de não acreditar em nada, não se importar com nada, não procurar saber de nada, não interferir em nada, não desfrutar de nada, não amar nada, não odiar nada, não encontrar propósito em nada, viver para nada e apenas continuar vivo, pois não há nada pelo que a pessoa morreria.” Isso é indiferença sem propósito e sem objetivo.

A acídia, segundo os cristãos a conceberam ao longo da história, é realmente uma categoria que nos ajuda a entender o que conhecemos pelo nome de apatia. Como um diagnóstico da alma, ela aponta para o fato de que o que quer que esteja acontecendo em nós não é algo meramente psicológico ou emocional, mas também espiritual. De fato, a acídia parece ser caracterizada principalmente por sua resistência ao espiritual. E não é isso que achamos tão preocupante na apatia?

Importantes pesquisas psiquiátricas sobre a apatia têm sido feitas, especialmente entre pessoas com enfermidades graves como Alzheimer ou Parkinson.

No entanto, a pesquisa pode ser aplicada de forma mais ampla a todos os que estão tentando entender a apatia. Uma das definições mais comumente citadas descreve a apatia como uma falta de motivação que “não é atribuível a um nível reduzido de consciência, a um déficit intelectual ou a sofrimento emocional”.

Se a falta de motivação for acompanhada de falta de esforço, falta de interesse em aprender ou falta de emoção, então, o paciente pode ser clinicamente diagnosticado com uma patologia real. Alguns pacientes simplesmente relatam a apatia como “um levantar e ir embora” ou “a falta de uma faísca”. Essas frases fazem um excelente trabalho no sentido de articular um sentimento que muitos de nós compartilhamos.

No entanto, o valor da precisão clínica consiste em que, à medida que aprimoramos a definição da patologia, ficamos em melhor posição para tratá-la. Por exemplo, a apatia tem pontos em comum com outras patologias, como a depressão.

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Além disso, os estudos sobre a apatia foram capazes de chegar a uma lista restrita dos vários fatores que contribuem para ela, como fatores ambientais ou biológicos. Por exemplo, imigrantes ou membros de minorias étnicas às vezes se adaptam às diferenças de cultura ou de idioma tornando-se apáticos. A mudança de cultura, ou a sensação de estar isolado dentro de uma cultura, interfere na sua busca de valores ou objetivos, e a apatia é apenas uma forma de lidar ou de se adaptar ao seu ambiente.

Estudos também mostram que o tipo de apatia que nos preocupa é, em grande parte, uma resposta adquirida ao mundo. Não é necessariamente algo com o qual alguém nasceu e, portanto, algo que se esteja destinado a ter pelo resto da vida. Pessoas relativamente saudáveis que ficam apáticas perderam o interesse pelas coisas — mas apenas por algumas coisas. Na verdade, o psicólogo Robert S. Marin define formas típicas de apatia como “apatia seletiva”.

A nossa apatia é justamente o oposto da apatia que nossos antepassados tanto prezavam.

O que é, então, a apatia? Quem precisamente é esse inimigo que está contra nós? Estamos a quilômetros (e a centenas de anos) de distância da antiga virtude da apatheia. Nossa apatia é justamente o oposto da apatia que nossos antepassados tanto prezavam. A nossa é uma apatia destituída de amor; a deles era definida pelo amor. A nossa condena a autodisciplina; a deles exigia a autodisciplina.

A apatia não é depressão profunda, nem desespero, nem desânimo. Não é o mover misterioso do fiel cristão a tatear nas trevas em direção a Deus. Em vez disso, é uma postura medíocre que oscila entre a confusão e o desengajamento.

A apatia, como a literatura da psicologia nos deixou cientes, é basicamente um déficit de motivação, de esforço, de interesse, de iniciativa e de desejo por coisas que antes considerávamos significativas. É um distúrbio psicológico, possivelmente não da mesma magnitude que tem a depressão clínica, mas ainda assim debilitante à sua maneira. A acídia apenas descreve o desânimo que sentimos em relação às coisas do Espírito; é um nome para a dimensão espiritual da apatia.

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A apatia é uma patologia psicológica e espiritual, na qual experimentamos um amortecimento prolongado da motivação, do esforço e das emoções, bem como uma resistência às coisas que fariam a nós mesmos e a outros florescer.

É um pecado que se expressa como inquietação, falta de objetivo, preguiça e falta de alegria para com as coisas de Deus. Não é apenas uma parte do comportamento adulto mais altamente evoluído, algo como ser alguém descolado demais para se importar com as coisas. É uma patologia.

A Escritura fala do pecado como uma doença que contamina todas as pessoas, desde que originou-se em Adão (Romanos 5.12), e que continua vivo em nós, produzindo todo tipo de mal (7.8,20). A Bíblia também afirma que éramos escravos do pecado, que precisavamos ser libertados do cativeiro (João 8.34-36; Romanos 6.6). Finalmente, o pecado é descrito como transgressão da Lei (1João 3.4), que traz condenação (Romanos 5.18; 6.23) e requer propiciação (3.23-25; 1João 2.2).

Na obra Not the Way It’s Supposed to Be [Não do jeito que deveria ser], Cornelius Plantinga descreve o pecado como o “vandalismo” do shalom. O shalom, biblicamente falando, significa “florescimento universal, integridade e deleite” — o jeito que as coisas deveriam ser. Nós violamos o shalom quando nos voltamos contra a boa ordem que Deus estabeleceu. Nós a subvertemos quando vivemos de modo que prejudica o nosso bem-estar e a nossa alegria, bem como os dos outros. E porque o shalom tem a ver, em última análise, com o nosso relacionamento com o Criador, sua vandalização é direcionada a Deus.

Como escreve Plantinga,

O pecado não é apenas a violação da lei, mas também a violação da aliança com o salvador. Pecar é macular um relacionamento, é entristecer o pai divino e benfeitor, é trair o parceiro a quem nos unimos por um vínculo sagrado.

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Essa mácula acontece por meio de nossas ações, bem como de nossas atitudes. A apatia é uma doença da alma; é uma deformidade do coração que precisa ser curada. A apatia, do modo que muitos de nós a experimentamos, é uma forma de escravidão. Parece que não conseguimos sair dela, e nos vemos regularmente nos rendendo a seus avanços.

Em última análise, a apatia, como recusa de amar aquele que mais inspira e mais merece amor, é um crime moral e espiritual. É um pecado em seu sentido mais básico. Suas origens podem ser misteriosas, mas sua orientação não é. É uma frieza para com Deus e uma indiferença para com as coisas que trazem shalom — duas atitudes que precisam ser perdoadas, vencidas e curadas.

Devemos lamentar nossa apatia, embora não a lamentemos como aqueles que não têm esperança. Deus é conosco e por nós em nossa apatia.

Uche Anizor é professor associado de teologia na Talbot School of Theology. Conteúdo adaptado e traduzido de Overcoming Apathy, por Uche Anizor©2022. Usado com permissão da Crossway, um ministério editorial da Good News Publishers. Todos os direitos reservados.

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2022-04-12
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